Paraguai : “gracias por haber venido”
Leia artigo de João Luiz Duboc Pinaud sobre a luta do movimento Tekojoja e a vitória de Fernando Lugo no Paraguai.
João Luiz Duboc Pinaud *
"Gracias por haber venido", frase bastante
escutada durante a eleição vitoriosa de Fernando Lugo superando a dominação dos
colorados, longa (60 anos), violentíssima (basta indicar a trama política
assassina para eliminar líder Tekojoja da oposição,o radialista Alfredo Ávalos,
gravemente ferido, matando com 4 tiros sua mulher, a brasileira Silvana
Rodrigues Ávalos. Porém este audacioso momento de opressão continuada e medo
falhou. Não inibiu o Tekojoja, enquanto movimento popular, maior e
essencialmente melhor, marcado pelas pautas democráticas pró-soberania, menos
ainda inviabilizou o caminho da proposta latino-americana emancipadora
representada pela candidatura Fernando
Lugo.
Esta recente vitória eleitoral validou, como eficácia de luta política no século XXI, de rica e surpreendente cultura popular trilhando veredas renovadoras dentro do plexo internacional, e superior às forças de governos que durante décadas buscou excluí-la. E a multidão livre da opressão e do medo acorreu, respondendo , apesar da intensa propagando oficial, aos diferentes chamados que, até então, não havia sido entendido e decodificado. Foram portanto multidões, internamente disciplinadas, enfileiradas, magnificamente tranqüilas e vivamente esperançosas, diante das urnas, entre as tantas distribuídas pelo chão guarani.
Gracias por haber venido. Porque diziam? Quem falava? Quem escutava? Claro. Os calados eleitores paraguaios de suas intermináveis e penosas filas para votar, então falaram. Notadamente quando pegavam para ler todos os dizeres das nossas Credenciais “Republica Del Paraguay – Tribunal Superior Eleitoral”,agradeciam. A pequena “tarjeta” plastificada, da” Justicia Electoral”, naquele histórico e mágico instante, efetivamente, legitimamente, verdadeiramente e finalmente, expessava” Custodio de la voluntad Popular”. E foi seguido à risca o “Reglamento de Observacion Electoral “ como estava escrito no verso “: esta acreditación es personal e intransferible ’’ . E nós, observadores internacionais, cumprimos exatamente o exigido ( art. 12) : ”portar siempre su credencial, em forma visible durante el desempeño de sus atividades...“ Fomos além do artigo. Pois diante de milhares de votantes determinados a votar num pleito, finalmente introjetado como legítimo, recebendo deles, das “Juntas Cívicas”, dos “ Apoderadores”, a conseqüência que não constava da solicitação oficial: às autoridades Civis y /ou Militares para prestar colaboração requerida para o exercício daquelas funções temporárias e relevantíssimas. O transbordante ocorreu : nas ruas paraguaias, qual correnteza de rios mágicos em dia eleitoral, o povo não apenas prestou aos observadores internacionais a cooperação pedida; tributou mais, ou seja, emotivo apoio prévio de sua confiança. Porque aquele povo, logo depois dos primeiros minutos de estranheza, mediante instantânea transmissão (só possível em Massa humana transmudada em povo articulado) mágica e imediata interação. Era o que surgia nítido nos gestos, sorrisos, apertos de mão, silêncios, olhares, principalmente no olhar direto de cada um. Isso porque aquelas pessoas esperavam, desejavam aquela votação e, finalmente, haviam tornado suas as eleições presidenciais, querendo-as transparentes e contavam conosco nessa procura.
Foi então que compreendi ( após tantos anos de ativismo ) a densidade do que foi dito sobre Sergio Vieira de Mello (segundo o narrado por Kofi Anan, da ONU ) que vivenciou Direitos Humanos não como trabalhar para os outros, mas ser um entre eles. Foi o que ocorreu naqueles precisos e preciosos instantes, com os observadores internacionais presentes nas votações e atuantes fiscalizadores atentos nos vários momentos apuratórios. Havia sinal claro de Ética Política atuando. Após a vitória o governo eleito reconheceu, em sua primeira fala, tal interação contribuindo para a cidadania, garantindo o respeito, a liberdade de escolher e a privacidade. A frase com a palavra gracias não traduzia qualquer subalterno agradecimento, afirmava um novo reconhecer , necessariamente válido, eficaz e urgentíssimo no contexto latino-americano e caribenho. Aliás, reconhecimento de instante pontual de eficácia democrática em contextos mais amplos, ou melhor, em todos os espaços onde a hegemonia financeira capitalista exerça sua força exploradora e possibilidade (transitória) de mutilar historicamente, políticamente, moralmente, Nações que já poderiam ser soberanias nacionais cosmopolitamente interelacionadas e integradas.
O Karl Marx do século 19, tão certeiro ao antecipar os dilemas básicos do poder na exploração capitalista, afirmando a onipotência do povo mediatizada pela imprensa livre, teoricamente, anteviu a legitimidade eficaz dos observadores internacionais?
O que separa o pontual tópico do pantônomo? Seria a pergunta de um teórico político antes de conhecer as raízes do fenômeno político verificado. Nessa linha, eleição do Paraguai, praxis diferente, independente. Momentos de uma consciência ética internacional vitoriosa ante hegemonias. Essas, apesar de monstruosas e mutiladoras, como sempre são ( e somente assim podem existir), desmoronaram em sua aparente invencibilidade.Tais Impérios, dominando e mutilando povos, historicamente nunca são para sempre.
Diferentes surtos de emancipação, explanando-se com a racionalidade estruturada, quando raízes antropológicas, antiqüíssimas e fortíssimas até então pisadas e sufocadas se assumem enquanto novas forças, como decisão política, democraticamente incontrastável. E por mais que sua carga explosiva – em forma de indescritível alegria popular enorme pelas ruas de Asuncion, não lograsse aparecer no mundo como grande caminho legitimado, a euforia após a vitória Lugo, foi, além de susto para os dominadores da hegemonia capitalista, que sempre entoaram seu canto de torturas, misérias e mortes, com seus exércitos e governos necessariamente armados de fogo e fel, foi muito além dessa surpresa. Não somente para Paraguai, mas para a latino-americanidade caribenha (valendo para demais povos se explorados). Não apenas um susto, mas surto exemplar, irrupção de Democracia. Portanto, senhores, esta mensagem Paraguaia felizmente, chegou em tempo. Não mais possibilitará violações às democracias mediante armas,medos e corrupções. Desestimulará, pois comprovou as ineficácias das anteriores ditaduras na América Latina e Caribe. Tal recado paraguaio, sessenta anos depois, iluminando-se dentro das sombras da opressão e dos silêncios das misérias, passa a ser nítido. O Paraguai promulgou a invalidade histórica das tiranias para hegemonias. Foi o que o povo paraguaio firmou através do movimento Tekojoja neste dia 20 de abril. Pode ser que para capitalistas serenizados em torno de suas mesas tecidas de granito, lâminas e mísseis, tenha sido apenas ligeiro tremor. Sismógrafos podem até nem registrar. De fato, no recente abril paraguaio, na raramente vista irrupção de euforia, não foi nada demais: apenas a vitória dos despossuídos de tudo, nunca exaustos de esperar, que finalmente compareceu ao encontro por longo tempo marcado com o povo. Diante disso talvez os observadores internacionais sentissem a necessidade de retribuir dizendo: obrigado por haver podido vir e testemunhar tal encontro com a esperança socialista.
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* Grupo Brasileiro do Observadores Internacionais (Brasil) durante eleições de Fernando Lugo (Paraguay), membro da Comissão de Direitos Humanos do Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil (CNDH) , da Associación Americana de Juristas –AAJ, Rama Rio de Janeiro (Presidente), Conselho da Casa da America Latina (Rio de Janeiro), amigo e colaborador do MST (Movimento dos Sem Terra), integrante do PSOL (Partido Socialismo e Liberdade-Niteroi) , Advogado inscrito na OAB-RJ - jlpinaud@terra.com.br