Fernando Lugo vence eleição e promete que Paraguai "voltará a ser grande"
Massiva participação popular nas eleições coloca fim à hegemonia de 61 anos de controle do Partido Colorado no Paragui; novo presidente defende a construção do consenso
Por Pedro Carrano,
enviado Especial a Assunção
Do Brasil de Fato
Os incidentes e denúncias sobre as práticas de compra de votos do
Partido Colorado, em povoados, bairros e distritos do Paraguai, não
foram suficientes para alterar o resultado qualitativo das eleições de
2008: a participação popular fez a diferença e escolheu Fernando Lugo,
com 40,82% dos votos, pela Alianza Patriotica para el Cambio (APC),
contra 30,72% da candidata colorada Blanca Ovelar. O ex-general
Lino Oviedo, da União Nacional de Cidadãos Éticos (Unace), chegou ao
final do pleito sem entregar o voto útil a Ovelar. Oviedo atingiu
21,98% da votação. Este resultado foi anunciado pela justiça eleitoral
paraguaia, às 21:45h do domingo (20), quando 92% das urnas foram
apuradas.
Antes, às seis horas, quando os primeiros resultados
de boca de urna indicavam a vitória de Lugo, na sede da APC a bandeira
paraguaia e o nome do ex-bispo eram ovacionados. O coordenador-chefe da
campanha, Miguel Angel Lopez Perito, anunciava que o país vivia “a
queda da ditadura de Stroessner” (1954-1988, reeleito oito vezes), e
finalmente se iniciava a verdadeira transição. Na sua fala, Lugo
afirmou “que os pequenos também podem vencer”. Naquele momento, já não
havia chance de uma temida fraude e a vitória estava assegurada.
Os
rumores de intimidações, compra de votos e de membros das mesas de
votaçao não foram suficientes para conter a participação massiva. O
povo paraguaio acudiu em massa às urnas, que este ano contaram com 60%
de participação. Para comemorar a vitória, o Panteón de los Héroes, em
Asunción, abrigava milhares de pessoas. A maioria eram jovens cuja
última grande movimentação aconteceu durante o “marzo paraguayo”, em
1999, com a morte de sete manifestantes e a queda do então presidente
Raúl Cubas Grau. Ainda assim, eles nunca haviam visto outro grupo no
governo do país. Carros tomaram conta de uma cidade que até a noite de
sábado estava em silêncio. Um silêncio que várias pessoas chamavam de
“a calmaria antes da tempestade”.
Até bem pouco o clima era
incerto. Na noite de sábado (19), em uma das últimas aparições antes da
votação, Lugo compareceu à missa no município de Lambare, conurbano de
Assunción. Estava acompanhado de seu vice, Frederico Franco, do partido
liberal. Com o foco de poucos meios de comunicação, Lugo confirmou
aquilo que um segurança da campanha havia dito em conversa com o Brasil de Fato.
Lugo é um homem simples, austero. Na saída da missa, um grupo tentou
provocar Lugo, arrumando confusão com outros fiéis da igreja.
Ação política decisiva
O
descontentamento popular foi o primeiro fator para a eleição da APC. O
outro papel decisivo coube -- como Lugo ressaltou em seus
agradecimentos -- aos comissários que fiscalizaram as eleições em cada
distrito, pela Aliança Patriotica para el Cambio (APC) e pelos
movimentos populares. Inferiores em número, jogando o jogo desigual das
eleições, cumpriram um grande trabalho militante.
A presença
de observadores internacionais também foi reconhecida como decisiva.
Estiveram seguindo as eleições desde a oficialista Organização dos
Estados Americanos (OEA), passando pelo Fundação Internacional para
Sistemas Eleitorais (IFES), presidido pelo ex-presidente colombiano
Andrés Pastrana. A presença de observadores dos movimentos sociais de
vários países também foi uma prioridade dentro dos preparativos da APC
para as eleições.
Para os militantes do Tekojoja, importante
base de Lugo, o dia 20 de abril começou por volta das 4h da madrugada,
com a divisão de carros entre os comissários dos diversos distritos de
Assunção, que deveriam dar conta das inúmeras denúncias. A apreensão,
naquele momento, era visível. Kátia, militante movimento, comentava a
dificuldade no processo de consciência atual, sentida ao longo da
campanha. “Quando fomos fazer trabalho de base, as pessoas não queriam
conversa, antes perguntavam quanto iam ganhar com aquilo”, comenta.
Sabe-se
que a democracia representativa é um jogo desigual em qualquer parte do
globo, que responde ao marco burguês. Uma fratura que no Paraguai está
ainda mais exposta. O número de votantes por mesa, em 2008, foi
reduzido de 300 para 200, aumentando assim o número de mesas de
votação. Resultado: aumenta conseqüentemente a dificuldade de vistoria
e a margem de influência do Partido Colorado, que controla o país há
61 anos.
Membro da Comissão de advogados do Tekojoja, Ramón
Sosa, alertava que o Partido Colorado, nas internas que haviam
garantido a vitória da atual candidata, Blanca Ovelar, obteve uma
diferença de apenas 25 mil votos, deixando suspeitas. “Existe um
assistencialismo massivo, que precisa ser superado. Se três votos são
eliminados de cada mesa, por exemplo, em 15 mil mesas isto significaria
45 mil votos”, compara.
A reportagem do Brasil de Fato pôde
comprovar a inserção dos colorados nos bairros. Praticamente encerradas
as votações, houve a denúncia no bairro de Lambaré de venda de cédulas
eleitorais e pessoas ameaçadas, em uma sede do Partido Colorado. No
caminho até o local, a reportagem deparou com militantes do partido, em
um posto de comando, portando armas em plena rua. Na sede do partido, a
prática de venda foi negada. Denúncias como esta se repetiram na voz de
outros observadores internacionais.
Nesta segunda-feira (dia
21), vários matizes políticos deram o primeiro passo juntos, dentro da
APC. Um tema bastante levantado é o futuro das forças que formam a
aliança. Na primeira entrevista coletiva após o resultado das eleiçoes,
Lugo acenou para a conciliaçao entre a classe política paraguaia, em
nome de um projeto de país deixado de lado até então. “Faço um convite
muito especial, a toda a classe política, a todos sem exceção:
inclusive com aqueles que não compartilham destes ideais. Juntos cremos
que (este país) voltará a ser grande”, expressou.
A
orientação, neste momento, é estimular diálogo. “Temos que seguir sendo
aliança, dialogando com todos os partidos”, afirma um militante do
P-MAS. Para Guillermina Kanomikoff, secretária do Tekojoja, foi
importante superar o antigo processo onde “votavam os mortos”. Agora é
preciso indicar à população o seu protagonismo no governo Lugo. “Não se
trata de construir por votos, mas por consensos”, comenta Guillermina.